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Falha de Organizadores nos Debates Eleitorais


POR VANDI DOGADO
Os debates eleitorais, historicamente, são plataformas importantes para que os eleitores conheçam as propostas dos candidatos, confrontem ideias e escolham, de forma mais consciente, seus representantes. No entanto, o que deveria ser um espaço de argumentação construtiva tem se transformado, cada vez mais, em um teatro de agressões pessoais, distorções e mentiras. Esse fenômeno, que assola o cenário político atual, não surge do vazio; ele é facilitado e, em certa medida, legitimado pela falta de rigor e responsabilidade dos organizadores desses eventos.
A retórica, arte de persuadir através da comunicação, é tradicionalmente dividida em três modos principais: ethos, pathos e logos. O ethos refere-se à credibilidade e ao caráter do orador, ou seja, à confiança que ele inspira no público. O pathos diz respeito ao apelo às emoções, buscando sensibilizar ou manipular o público através de narrativas emocionantes. Já o logos é o apelo à razão e à lógica, utilizando fatos, dados e argumentos racionais para convencer. Em debates eleitorais, os candidatos frequentemente recorrem ao pathos para manipular as emoções dos eleitores, desviando o foco das questões substantivas. Outra estratégia comum é o uso do ad hominem – um ataque pessoal que visa desacreditar o oponente, em vez de refutar seus argumentos. Outras falácias populares incluem o espantalho, que distorce o argumento do adversário para torná-lo mais fácil de atacar, e o apelo à ignorância, que afirma que algo deve ser verdadeiro porque não foi provado como falso. Embora o papel dos organizadores seja crucial para impedir o ad hominem nos debates, cabe ao cidadão identificar essas outras falácias e não se deixar enganar por elas.
É inegável que o ad hominem – a prática de atacar o caráter ou as características pessoais do oponente, em vez de refutar seus argumentos – tornou-se um recurso comum nos debates. Este artifício, embora falacioso, é eficaz para desviar a atenção do público das questões substantivas e, não raramente, para manipular as emoções dos eleitores. Nesse sentido, identificamos claramente o uso do pathos na retórica, ou seja, o apelo às emoções, muitas vezes em detrimento da verdade e da lógica. O erro, no entanto, reside na conivência – consciente ou não – dos organizadores dos debates, que falham em estabelecer e fazer cumprir regras claras que desencorajem tais práticas. Ao permitir que os candidatos recorram ao ad hominem sem consequências, os organizadores não apenas traem o propósito original do debate, mas também degradam o nível do discurso público.
A conivência com essa prática é agravada pelo fato de que muitos candidatos, após lançarem ataques pessoais durante os debates, recorrem às redes sociais para amplificar e perpetuar essas agressões. Os recortes cuidadosamente editados, retirados do contexto, não apenas reforçam as mensagens negativas, mas também contribuem para a polarização da sociedade e a desinformação do eleitorado. Nesse ciclo vicioso, o debate deixa de ser um instrumento de esclarecimento e se torna uma ferramenta de manipulação e distorção da realidade, novamente favorecendo o pathos ao invés de um discurso fundamentado no logos.
Nos últimos anos, essa situação tem se agravado a tal ponto que não se limita mais ao uso de ataques pessoais. Agora, vemos candidatos dispostos a mentir descaradamente e até mesmo a cometer crimes, como a injúria, a difamação e a calúnia, para enfraquecer seus oponentes. Mais uma vez, os organizadores dos debates se mostram impotentes ou, pior, omissos. A ausência de punições severas para tais condutas envia uma mensagem clara: tudo é permitido na arena política, desde que se consiga captar a atenção do público e, consequentemente, votos. Esse cenário ilustra a falha em estabelecer um ethos apropriado nos debates, em que a integridade e a credibilidade dos candidatos deveriam ser centrais.
Para que os debates eleitorais possam recuperar sua relevância e credibilidade, é imperativo que os organizadores assumam uma postura mais proativa e rigorosa. Deve-se estabelecer um código de conduta para os candidatos, com regras claras que proíbam o uso de ataques pessoais e a disseminação de mentiras. Mais importante ainda, deve-se prever punições imediatas e proporcionais para aqueles que violarem essas regras, como a perda de tempo de fala ou mesmo a desclassificação do debate. Essas medidas são essenciais para que o logos – o apelo à razão e à lógica – possa prevalecer, permitindo que os eleitores façam escolhas informadas e racionais.
Além disso, os organizadores devem se comprometer com a verdade, sendo responsáveis por corrigir e refutar, em tempo real, qualquer informação falsa que seja veiculada pelos candidatos. Dessa forma, o público não apenas seria protegido da desinformação, mas também seria educado sobre as normas de um debate saudável e democrático. Este compromisso com a verdade é fundamental para restaurar o ethos nos debates eleitorais, garantindo que apenas argumentos baseados em fatos e lógica (logos) sejam valorizados.
Embora a responsabilidade principal pela proibição do ad hominem nos debates eleitorais recaia sobre os organizadores, cabe ao cidadão identificar outras falácias que possam surgir. Aqui, as escolas desempenham um papel crucial. É essencial que o sistema educacional se concentre na formação do pensamento crítico e na construção de uma argumentação sólida, fornecendo aos alunos as ferramentas necessárias para reconhecer e questionar argumentos falaciosos. Essa educação é fundamental para garantir que os futuros eleitores estejam bem equipados para discernir entre discursos manipuladores e debates fundamentados.
Por fim, a responsabilidade pelo atual estado dos debates eleitorais recai, em grande parte, sobre os ombros daqueles que os organizam. A falha em criar e fazer cumprir critérios que garantam a integridade do debate não apenas prejudica a qualidade do processo eleitoral, mas também compromete a própria essência da democracia. É urgente que essa situação seja corrigida, para que os debates possam cumprir sua verdadeira função: informar, esclarecer e elevar o nível do discurso político. Tal fenômeno torna alguns políticos "lacradores" de redes sociais fortes candidatos, mesmo sem ter competência e propostas para a melhoria da sociedade. Se não bastassem as Fake News espalhadas pela Internet, agora a mídia tradicional reforça o perigoso equívoco em seus canais. Depois, é só contar com os algoritmos das redes sociais que a tragédia se espalha como fogo em folha seca.
PS: os debates na eleição para prefeito na cidade de São Paulo é o maior exemplo de bizarrice permitida por organizadores.

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